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Era uma vez...


E ela já tinha 62 anos...

Ela já tinha 62 anos, usava os cabelos curtos, naturalmente brancos. A pele evidenciava bem sua idade.

 

Naquela noite de sereno ela usava um sobretudo creme até os pés.

 

Parada na calçada, um senhor veio trocar umas palavras, não pude ouvi-las bem, mas ela sorria sempre descaradamente... Conversaram por mais de uma hora, vez ou outra suas mãos se tocavam.

 

Passando o tempo o senhor distanciou-se, e mais uma vez ela se encontrava só. Andou até a outra ponta do quarteirão e parou na guia. A chuva apertou e começou a encharcar seus cabelos, mesmo assim ela ficou na chuva.

 

Lembrava vagamente do passado, lembrou-se com mágoa de sua mãe. Em especial de um episódio que se passara quando ela estava com apenas 15 anos. Nesse dia tinha um encontro, era seu primeiro encontro, estava nervosa e com medo, afinal Beto era um dos garotos mais cobiçados da escola, e ele a chamou para sair.

 

Passou a tarde toda escolhendo uma roupa, colocou uma saia, mas sentiu-se vulgar demais, acabou colocando um jeans e uma camiseta branca.

 

Às seis da tarde, Beto tocou a campainha, ela atendeu e foram ao cinema, assistiram a um filme de terror. Às oito e meia já estavam de volta, Beto a levou de carro até sua casa.

 

Beto tinha acabado de fazer 18 anos, e seus amigos zoavam dele por estar apaixonado por uma garota tão nova, mas ele nem ligava, sabia que ela era tudo o que ele queria. À noite, em sua cama, Beto fantasiava que estava se casando com ela, ele a olhava nos olhos e dizia sim sem ter uma única dúvida.

 

Ela disse que havia amado o filme e sua companhia, mas que agora teria que entrar, pois sua mãe já tinha chegado do trabalho e iria ficar brava se ela demorasse demais.

 

Beto concordou, mas antes de deixá-la sair, entrelaçou os dedos em seus cabelos, tão compridos e tão cheirosos, que o deixavam ainda mais apaixonado, e com toda delicadeza aproximou seus lábios dos dela, mas antes de conseguir tocá-los a mãe abriu a porta do carro, e selvagemente a puxou para fora, disse que ela era uma menina má, que estava possuída pelos pecados, jogou-a na grama e mandou Beto ir embora.

 

Assustado com a situação, ele saiu de lá. À noite ligou para ela e jurou que no dia seguinte iria resolver a situação, pedindo-a em namoro à mãe dela e lhe explicar que no caso deles não havia luxúria e sim Amor.

 

Eram 11 horas da manhã de sábado, Beto passou na casa dela, mas quando chegou lá não encontrou ninguém. Os vizinhos lhe contaram que elas haviam ido embora. Soube anos depois que a mãe a mandou para um convento.

 

Por seis anos ela ficou “presa”. Todos os dia pensava no Beto e em seus lábios que mal a tocaram naquele dia. Quando se tornou maior de idade soube que agora poderia fazer o que quisesse de sua vida. Saiu então de lá, queria procurar Beto e lhe dizer que ainda o amava.

 

Antes teria que arranjar um emprego, e conseguiu, como garçonete em um boteco que ficava ao lado de uma fábrica de borracha.

 

Um dia saiu do trabalho tarde da noite. Como não havia mais condução, foi para casa a pé, mas o destino não quis que ela chegasse bem. No meio do caminho foi abordada por um homem alto, branco como a luz do dia. Ele a agarrou pelas coxas, jogou-a no chão, a estuprou, lhe bateu na cara, no estômago, nas partes íntimas...

 

Quando ela acordou, já tinha 53 anos, tinha ficado 32 anos em coma, seu caso era tão excepcional que saiu em todos os jornais.

 

Beto leu a matéria no jornal, seu filho mais novo, de nove anos, estava em seu colo. Ao ver a foto da mulher, Beto sentiu uma pontada no peito, ficou pálido e estático. Sua mulher Clarice perguntou o que houve, ele a encarou e disse: - “Que triste a história desta mulher, passou toda a vida em coma, e agora despertou, sem emprego, sem família, sem nada,”. Beto levantou-se da mesa, beijou carinhosamente sua mulher e foi trabalhar.

 

Depois de acordar, ela ficou no hospital por mais duas semanas e ao sair de lá lembrou de tudo o que viveu, sentiu-se infeliz ao lembrar que nada de bom teve em sua vida, desejou nunca ter acordado. Mudou-se para uma pensão no centro da cidade, o governo lhe dava um salário mínimo por mês, já que ela não tinha nenhum preparo para trabalhar.

 

Um ano se passou, ela mal saía de casa, estava cansada de sua vida, não tinha amigos nem família. Resolveu dar uma volta pelas ruas, nem se importou que era tarde da noite, no máximo poderia ser assaltada, se tivesse sorte poderia ser morta, colocou seu sobretudo creme, não passou batom nem nada. Sem saber para onde ir, parou na calçada, ficou com o olhar vidrado para o outro lado da rua, até parar um senhor e puxar conversa. Teve esperanças de que talvez sua vida se acertasse, quem sabe não arranjasse o que sua mãe sempre impediu: um namorado. Por que não?, ela pensou. Hora depois, o senhor se despediu e seguiu em frente. Sem saber o que fazer, ela andou até a outra ponta do quarteirão e lá ficou o resto da noite.



Escrito por Fernanda Emediato às 22h34
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Era uma vez...

Escrito por Fernanda Emediato às 22h26
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